Conheci — não pessoalmente, mas na sua espécie, que prolifera com a fecundidade preocupante de certas bactérias em meio de cultura propício — o tipo de jovem que Davi, nosso personagem fictício, representa. Rapaz inteligente, talvez, mas inteligente à maneira dos que confundem a recusa com o discernimento, como se negar fosse o mesmo que compreender. Davi havia chegado à conclusão, com a solenidade de quem anuncia uma descoberta geográfica, de que o pensamento livre consistia fundamentalmente em rejeitar aquilo que o mundo lhe impunha. O mundo era mau, as elites nos controlavam, a ciência era instrumento de dominação, a religião era ópio — e Davi, por ter percebido tudo isso, era, claro, um homem livre.
Não direi que essa intuição é completamente falsa, porque seria intelectualmente desonesto. As grandes corporações possuem agenda própria e a perseguem com a mesma tenacidade e muito menos pudor do que o traficante que negocia sua mercadoria na madrugada ou o adúltero que se acerta com a puta em esquinas que todos conhecem mas ninguém menciona. O lobby político não é ficção conspiracionista — é o mecanismo visível de um poder que prefere, quando possível, operar nas sombras. Até aí, Davi tem razão. O problema não é o diagnóstico; é a terapêutica que ele prescreve para si mesmo, que tem toda a eficácia de tratar uma pneumonia com cristais de quartzo.
Ocorre que a chamada "Internet 2.0" — essa revolução que transformou o navegante passivo em produtor ativo de conteúdo e tecido social digital — não democratizou o conhecimento. Democratizou a ilusão do conhecimento, o que é consideravelmente pior. Deu voz aos estúpidos, o que em si não seria tão grave — os estúpidos sempre existiram e sempre falarão —, mas conferiu-lhes algo muito mais perigoso: uma síndrome do pequeno poder cibernético, a sensação de que possuir uma conta numa rede social equivale a possuir autoridade intelectual. Dos grupos inofensivos do Orkut — que os mais jovens sequer conheceram — às comunidades da Dark Web, passando pelos fóruns de teorias conspiratórias que brotam como cogumelos após a chuva, o ambiente digital se converteu numa prodigiosa usina de fabricação de gnósticos modernos. Todos eles têm em comum, observe bem, três características: o discurso de que eles e apenas eles possuem a verdade oculta; um catálogo de livros e cursos à venda; e a vocação de promover o brain rotting — o apodrecimento lento da capacidade reflexiva — naqueles que alimentam a mente com as últimas pérolas do influencer espiritualzinho, o qual entende de ciência tanto quanto um frentista de posto de gasolina entende de fluidos não-newtonianos.
O retrato dessa degenerescência intelectual pode ser lido, com clareza quase didática, no ranking de livros mais vendidos neste nosso país que gosta de se chamar de culto: dos cinco primeiros colocados, quatro são livros de colorir para adultos. Para adultos. Que colorem. O terceiro lugar pertence a uma obra de espiritualidade e autoajuda de qualidade duvidosa, o que já seria alarmante se não fosse ainda mais alarmante o que aparece na seara da autoajuda propriamente dita: besteiróis quânticos como Como se Tornar Sobrenatural, de Joe Dispenza; O Segredo, de Rhonda Byrne; Peça e Será Atendido, de Esther e Jerry Hicks; e as meditações de Eckhart Tolle, que examinaremos com mais vagar. Tudo isso proveniente do mercado americano de seitas e soluções miraculosas — esse mercado que é, paradoxalmente, o mais desenvolvido do capitalismo e o mais crédulo do mundo espiritual, combinação que deveria dar a pensar a qualquer pessoa com dois dedos de inteligência não comprometida por cristais de cura.
Curioso — ou talvez não tão curioso assim, para quem observa o fenômeno com atenção — é que a maioria dos consumidores devotos dessa literatura pseudoespiritual se autodeclara livre-pensadora. É exatamente aqui que o erro se torna filosoficamente interessante, porque não se trata de mera ignorância, mas de uma inversão operada com precisão clínica: convencer o prisioneiro de que as grades são asas.
Tomemos Eckhart Tolle, cujo O Despertar de uma Nova Consciência é representativo do gênero com a fidelidade de um espécime bem conservado. Tolle afirma, sem a menor cerimônia, que toda forma de vida — incluindo a mineral — pode passar pelo processo de iluminação, pressupondo "uma descontinuidade no seu desenvolvimento, um salto a um patamar inteiramente diferente do Ser e, mais importante, uma diminuição da materialidade." Convido o leitor a tentar imaginar uma pedra — forma de vida mineral, no vocabulário do autor — sendo iluminada mística e espiritualmente, saltando de patamar ontológico rumo a algo menos material. Se conseguir imaginar isso com nitidez e considerá-lo uma proposição séria, é provável que esteja em condições de aproveitar plenamente o livro. Mas Tolle é um sucesso programado e globalmente distribuído — o que nos diz algo sobre os mecanismos de produção cultural do mundo anglófono, não sobre a qualidade do pensamento que produz.
Como cristão, não posso senão rejeitar como execráveis as proposições tolleanas a respeito de Jesus, reduzido a um "mensageiro" que atingiu, por mérito próprio e esforço contemplativo, um grau avançado de despertar da consciência — não o Verbo encarnado, aguardado por séculos de profecias do Antigo Testamento, mas um guru avant la lettre que, por azar histórico, teve seus ensinamentos simples e eficazes "distorcidos e mal interpretados" por discípulos incompetentes e pela Igreja que se seguiu. Para Tolle, ele e um "pequeno número de pessoas" preservaram os ensinamentos originais — que, claro, coincidem integralmente com o que Tolle mesmo ensina. A estrutura é a do sectarismo clássico: um líder carismático, uma gnose exclusiva acessível apenas aos iniciados, e a convicção de que os demais — os dois bilhões de cristãos, por exemplo — vivem numa caverna de enganos. João Evangelista já havia lidado com essa heresia velha, e é espantoso que ela retorne com tamanha regularidade e seja recebida com tanta entusiasmada credulidade.
O livro declara, com solenidade cômica, que seu propósito "não é acrescentar novas informações e crenças" — declaração que é seguida, no parágrafo imediatamente posterior, por afirmações categóricas sobre a natureza da realidade, o sentido da história e a posição espiritual do próprio Tolle em relação aos grandes mestres da humanidade. O problema de Tolle não é apenas a heterodoxia; é a desonestidade intelectual, que consiste em negar que se está fazendo exatamente o que se está fazendo. Aristóteles teria resolvido isso em meia página.
São Tomás de Aquino, na esteira de Aristóteles, formulou com precisão o que Tolle não consegue ou não quer compreender: adaequatio rei et intellectus — a verdade como adequação do intelecto à realidade. A verdade não é fabricada pela mente, não é uma "construção" do sujeito, não é o produto de um "despertar de consciência" que cada indivíduo realiza conforme o pacote de técnicas que comprou. A verdade está na coisa, e o intelecto a encontra quando se ajusta ao que a coisa realmente é. Quando Tolle afirma que as palavras nos lançam "num encanto quase hipnótico" e que nomear algo não equivale a conhecê-lo, está dizendo algo superficialmente verdadeiro, mas usa essa observação para uma conclusão que Aristóteles destruiria em três linhas: que o conhecimento conceitual é, portanto, uma ilusão, e que há uma experiência direta da realidade que prescinde das categorias do pensamento. Isso não é sabedoria antiga; é irracionalismo revestido de jargão contemplativo.
O ponto central, no entanto, não é Tolle — que é um sintoma, não a doença. O ponto central é este: ninguém é verdadeiramente livre em seu pensamento, e reconhecer isso é o primeiro passo para pensar com alguma liberdade real. Nossa mente é moldada por uma teia complexa de forças que interagem continuamente: a formação educacional que recebemos, a cultura que absorvemos — a da família, da cidade, do país, da região —, os traumas e as alegrias que experimentamos, os autores que lemos ou que deveríamos ter lido, o zeitgeist — esse espírito do tempo que opera sobre todos nós como o vento sobre o trigo, e que ninguém escolheu mas todos respiram. Esse ser único que resulta desse entrelaçamento possui suas inclinações e aversões, suas idiossincrasias cognitivas, suas zonas cegas — e é exatamente esse ser que se acredita livre porque recusou a autoridade do Estado ou da Igreja e adotou a de Tolle ou Byrne.
A liberdade de pensamento, na medida em que é possível — e é apenas relativamente possível, nunca absoluta —, exige antes de mais nada o conhecimento da história. Não o conhecimento de uma fatia dela, não o recorte temporal que nossa existência nos impõe por acidente de nascimento, mas a história como processo longo, contraditório, revelador dos padrões que a superfície do presente oculta. Quem não conhece história está inevitavelmente preso no presente, e quem está preso no presente é o mais fácil de manipular, porque não tem parâmetro de comparação. É por isso que os sistemas totalitários — de todo tipo e espectro — começam sistematicamente pela destruição da memória histórica: um povo sem passado é um povo sem defesa.
Mas o conhecimento histórico, por si só, não basta. É necessário observar o que acontece ao redor com olhos abertos e sem medo. As guerras, as disputas geopolíticas, as transformações culturais não são apenas acontecimentos que se sucedem na tela — são mensagens cifradas sobre as forças que nos movem, sobre os interesses que nos modelam, sobre os poderes que preferimos não nomear porque nomeá-los nos obrigaria a resistir-lhes, e resistir é trabalhoso. Reconhecer essas forças é o único modo de proteger a mente, a fé e os valores que fazem de um ser humano algo mais do que uma variável numa equação de mercado editorial ou um consumidor de conteúdo espiritual terceirizado.
O cristão que se volta para dentro de si em busca de um oceano cósmico de consciência está, na verdade, fugindo. Fugindo do mundo, fugindo do outro, fugindo da dor. E a fuga nunca foi o caminho do Evangelho. O Cristo que Tolle reduz a um guru da boa consciência é o mesmo Cristo que chorou diante do túmulo de Lázaro — não porque ignorasse o que faria a seguir, mas porque a dor do outro lhe era real, insuportavelmente real, como deve ser para todo aquele que leva a sério o mandamento de amar ao próximo.
A verdadeira consciência — se quisermos usar o vocabulário do tempo, ainda que com ressalvas — não é a que se expande em meditação para dissolver-se no cosmos, mas a que se volta para fora, para o rosto concreto do outro, para a dor específica do mundo. É somente nessa direção — ad extra, para fora — que a transformação real ocorre. Esse é o ensinamento de Cristo, não como mestre esotérico de uma linhagem perdida que Tolle recuperou providencialmente, mas como Deus que se fez homem: amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo. Não há fórmula quântica, não há técnica de respiração, não há livro de colorir para adultos que chegue sequer perto da radicalidade e da exigência concreta desse mandamento.
E é essa exigência — e não a dissolução cósmica do Ser — que nos dá a única liberdade de pensamento que um ser humano encarnado pode ter: a de olhar o mundo como ele é, suportá-lo como ele é, e ainda assim recusar a ser apenas o que o mundo quer que sejamos. Para que, quando a morte vier — e ela virá, com a pontualidade característica das coisas inevitáveis —, não nos reste o desespero de quem desperdiçou a existência nem o suspiro de alívio de quem simplesmente a suportou, mas o reconhecimento íntimo e sereno de que vivemos como se devia viver, que fomos fiéis ao que é transcendente, ao que é sólido, ao que atravessa os séculos sem se dobrar ao zeitgeist — e que estamos prontos, enfim, para conhecer as verdades que nenhuma autoajuda jamais nos deu, porque essas verdades não estão à venda.
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